TEXTOS

Na segunda exposição do nós-moçada, o coletivo se adensou. Apareceram mais nós. Ninguém novo no coletivo, eles continuam sendo os mesmos 14 que há 6 meses se reúnem para estudar e mostrar suas produções em espaços alternativos de São Paulo. No entanto, dessa vez, aparecem obras de autoria dupla, ou obras que tentam conectar todas as salas de exposição do Veredas, deixando a liga mais forte, para ninguém ficar sozinho.

Um conceito que perpassa vários desses trabalho, e que certamente tem ligação com a questão do coletivo, é a multiplicidade de identidades da era da comunicação cibernética. A frase famosa de Arthur Rimbaud, “Je est un autre” (Eu é um outro) é aqui atualizada para “Je est plusiers autres” (Eu é muitos outros), como explicitado na obra que exibe vários televisores, cada um com um personagem diferente encarnado no mesmo corpo, referência explícita a Cindy Sherman. Em outra sala, o universo de um “eu fictício”, Jaque Jolene, é apresentado como instalação. Um “eu virtual” participa da abertura da exposição em uma performance a longa distância: um dos membros do coletivo que está na Islândia passeará, via Skype, nos braços dos espectadores, carregado como se fosse um bebê, para participar da festa.

Obras que se espalham, como a que convida os espectadores a encher bexigas e deixar no espaço da exposição ou o morrinho de areia que inevitavelmente será carregado em grãos pelos pés dos visitantes, propõem a circulação, a criação de uma trama, como a rede que aparece no vídeo logo na entrada do Veredas.

A montagem vai ser uma obra também, definida pela questão da caracterização do coletivo como unidade. O nome de cada artista aparece nas etiquetas das obras como mais uma informação técnica, ao lado das medidas ou materiais usados. Afinal que nome é esse? Cada um dos nós são muitos eus.  Paula Braga        



                              ESSES MOÇOS


O início é um estado movente. O tempo passa, damos nomes a etapas fictícias que marcam o tempo, mas pensando bem, estamos sempre escorrendo para algo novo. Cada instante é um início, o percurso é uma enxurrada de inícios. E o nós-moçada tem seu início escorrendo em grupo no líquido do tempo, 14 no mesmo barco, artistas de uma época em que a multiplicidade é a regra e ser um é ser muitos. Assim, até a primeira exposição do grupo ignora a unicidade e é insubmissa a convenções temporais. Ela dura em três espaços diferentes — Casa Contemporânea, Veredas e Ateliê 397 —, descontinuamente. As obras podem mudar em cada desaguar. O que guardam de uma aparição a outra são dois eixos facilmente identificáveis na produção de seus integrantes: o tema da passagem e a desconfiança em relação ao sistema da arte.

Passagem

A soleira da porta é o resquício da performance de Joanna Barros. Se a porta é a clara metáfora da passagem, aqui adquire também um caráter de ignição de novos estados. É um batente em carne-viva, descascado, que expõe o cobre condutor. Estados de emergência são o grande interesse da artista, que apresenta também uma série de desenhos com linhas tão finas quanto vivas. Vão se transformando, mudando sutilmente de estado, sugerindo uma animação quadro a quadro, em movimento quase imperceptível. A emergência não é a urgência bruta, mas um processo ininterrupto de revelação.

Nunca é fácil o começo, então fácil não é nunca. Viviane Tabach invoca João Cabral para passar pelo início, “cultivar o deserto como um poema às avessas.” Numa instalação efêmera, deixa o tempo passar à medida em que tigelas de gelo derretem. Enquanto aquela água segue seu caminho, um jardim suspenso por fios cresce na sala de exposição. Do lado de fora, as grandes esferas de pau-a-pique de Leo Akio pendulam marcando não só o tempo, mas reagindo aos movimentos de quem passa pela exposição. As esferas ficam expostas ao tempo, e vão se desfazendo durante a mostra. Duram um ciclo.

Jaque Jolene, personagem que encarna celebridade e decadência, prepara-se para um recomeço no video da artista Márcia Beatriz. Sem perder o glamour garantido pela tecnologia da cosmética e dos psicotrópicos, ela se despede de uma fase. Fecha as janelas, desliga as luzes, prepara-se para a mudança. Com champanhe e antidepressivos, com festa e ressaca, fecha a porta e entra resoluta no elevador. Vai.

A passagem emerge também na linha da vida do ser genérico apresentado na obra de Gabi Vanzetta: nasce, estuda,vai a uma festa, num acúmulo de primeiras-vezes, de inícios, que tentam capturar a enxurrada do tempo com rótulos. Num esforço contrário, o vídeo da mesma artista, intitulado “Tudo que leva tempo o tempo leva”, deixa o tempo escorrer, admite sem crises o recomeço eterno. Ao filmar a montagem de um castelo de cartas, a artista consegue um movimento tão neutro e inútil que tem como única função servir de meio para o escoamento do tempo.

Alessandra Falbo opta pela imagem parada que tenta registrar o pulo do gato — o instante — e remete ao recomeço eterno nas cenas avermelhadas de uma festa de família. Se é Natal ou Ano Novo, pouco importa, mas duas personagens mais uma vez vieram, sentaram-se à mesa, e virão de novo e de novo. Mas vão mudando de cor, como naquilo que se chama “desvio para o vermelho”: a luz vai se avermelhando à medida em que se afasta da fonte de observação. A mesma festa, a mesma luz, está já em outro ponto, mais distante. Talvez um ponto da memória.

Esse efeito de desvio para o vermelho é observado na luz de estrelas, e ocorre provavelmente por causa da expansão do universo. A luz da estrela avermelha-se porque está se afastando do observador: o espaço entre eles cresce à medida em que o universo se expande. A obra de Daniel Lie invoca o tempo e o universo em traços repetitivos e circulares, que formam mandalas. A pesquisa aqui vai do muito pequeno, microbiológico, ao muito grande, cosmológico. Como resume o artista ao falar de seu trabalho: qual a ligação entre o vazio existencial e o buraco negro?


Sistema

O começo é liberdade. É momento propício para refletir sobre as instituições da arte, aí incluindo discursos canônicos da história da arte, como a questão de gênero. Barbara Hoffmann testa receitas e maneiras de fazer. Em filmes bem humorados, ela confronta estereótipos de feminilidade e da “economia doméstica”. No video desta exposição, uma mulher tenta fazer um bolo de três maneiras; primeiro com todas as ferramentas tradicionais, depois reduzindo a disponibilidade de utensílios de cozinha e por fim só com as mãos: maneiras diferentes e possíveis do feminino. A questão de gênero é assunto também na obra de Julia Cury, como na escultura com sapatos masculinos e pão caseiro. Janaina Wagner remete à presença da mulher como modelo na história da arte no filme em que uma atriz move-se languidamente, oferecendo-se para a contemplação, em uma banheira em forma de camafeu. Reforça, certamente, a posição passiva do feminino na história. Crítica ou adesão?

Percebe-se também nessa primeira mostra do nós-moçada comentários sobre o sistema da arte. Paula Zacaro infiltra- se na arquitetura do espaço expositivo, instalando uma longa mangueira de água que atravessa as galerias para gotejar no jardim. Nei Franclin cria pequenas maquetes (serão galerias?) feitas com material achado no lixo ou em locais de demolição. Felipe Meres ironiza o discurso sobre a arte (desconfie desse texto) ao exibir um video achado no YouTube no qual Lady Gaga discorre sobre a obra de Marina Abramovic. Curiosamente, o video é legendado por um programa de reconhecimento de voz, mas o que se lê não é exatamente o que se ouve. Denise Rodrigues-Alves vai mais longe na transgressão e distribui durante a exposição desenhos que são planos para roubo de obras de arte como o Almeida Jr. da Pinacoteca ou um esquema digno de grandes mestres para roubar a escultura de Amilcar de Castro da Av. Paulista.

Eles se chamam de nós. E chegam com aquela confiança feérica no coletivo que marca os anos da mocidade. É o momento da vida em que ser um só parece pouco, em que o bando é mais importante do que o indivíduo para enfrentar e resistir. Então chegam já prontos para suavizar os egos e virar célula de algo maior. Ou grão de um punhado. A diferença de sabor quem faz não é o grão isolado, mas a pitada, a dose incontável, aquela que em inglês exige o some. Em português, a individualidade some mesmo, e o que se vê é um todo, no qual as singularidades existem, e integram-se perfeitamente ao sabor geral. A exposição do nós-moçada é um curry, feito de vídeos, performances, desenhos, fotografias e objetos.  Paula Braga